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QUATRO PATAS

QUATRO PATAS

Os cães assumiram tanta importância na vida da gente que viraram um negócio de 13 bilhões de reais anuais em rações, xampus, brinquedos, venda de filhotes, gastos com veterinários e medicamentos.

 

Quando ando pelas ruas do meu bairro tomo o cuidado para pisar no cocô com o pé direito. Dizem que dá sorte. Pelo menos foi o que me garantiu o padre Eduardo, que viveu muitos anos em Paris, a cidade com mais pets do mundo. Em termos nacionais, temos 35 milhões de cães de estimação, atrás apenas dos Estados Unidos.  Só na minha casa colaboro com quatro bichos de pelo para essa estatística.

 

Começo a entender o porquê de a minha mulher conversar mais com os cachorros do que comigo. Mesmo quando estamos viajando ela inventa diálogos com os lhasa-apso ausentes e troca o tom de voz por outro mais aflautado, como se tivesse se dirigindo a crianças de colo.

 

O Wilson, personal-pet deles, cachorros, acha “nor-mal” essa atitude carinhosa da minha esposa. “O cão supre um pouco a carência de companhia. Depois de muitos anos de casamento as pessoas se distanciam, não há tanto contato físico e o cão preenche essa lacuna”. Ainda mais essa…

 

Pois é. Só falta eles quererem dormir no meinho.  Todo dia surpreendo o Wladimir na minha cama, às vezes em posição impudica, com as quatro patas para cima. Xô. Procurei ouvir um psicólogo especialista em comportamento animal (essa profissão existe, sim). Segundo ele, o cão é um bebê eterno: nunca vai se tornar independente e sair de casa. Exige atenção, sempre. Aos domingos, quando pretendo dormir até mais tarde os quatro cães pulam na minha cama logo que o dia começa a clarear. E começam a lamber a planta do meu pé. E depois a orelha. Arrepia.

 

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A Júlia tem um brinquedinho de borracha em forma de osso que ela insiste em enfiar debaixo do sofá. Só para que eu tenha que me abaixar e pescar o objeto. Enquanto não fizer o resgate ela não para de rosnar e esfregar a pata no móvel. O psicólogo explica que é para chamar a atenção.

 

Wladimir sofre de terríveis flatulências. Toma lactobacilos vivos para melhorar a flora intestinal. Vive a peito de frango desfiado, com arroz. Mas, não adianta. O pior é que as visitas não acreditam que é ele que produz o cheiro. Ao sentir o ar empesteado eu grito: “Wla-di-mir”. O visitante me olha de esguelha. Como se eu quisesse disfarçar.

 

O curioso é que no meu bairro os vizinhos pouco conversam. Quando saio com a Júlia, de lacinhos na cabeça, as pessoas se aproximam na padaria e quebram o gelo. Chamo a isso de fator-pet de integração. Fiquei conhecendo gente que eu nunca imaginava.

 

Cachorros, não são só membros da família. Eles mandam na casa. Seria importante um curso de comunicação para entender cachorros. Soube do caso de um rotweiller que resolveu permitir a entrada dos donos somente pela porta do quintal. A passagem pela porta social só é possível em dias especiais… Para o cão. Quando os humanos recebem visitas de parentes tem que ensiná-los a, primeiro, cumprimentar o cachorro. Se cumprimentarem o dono antes, o cão ataca. Ah, e também não precisa se despedir porque ele detesta a palavra “tchau”. Há casos de marido que, se o cachorro estiver na cama do casal, com a mulher, tem que chegar disfarçadamente, sentar de costas e deitar virado para a parede para não ser atacado.

 

Há alguns anos só havia o Juquinha em casa. Minha filha, que estudava em São Paulo ganhou uma cachorrinha do namorado. Depois brigou com ele e trouxe a cadelinha para minha casa. Daí cruzou com o Juca, nasceram os filhotes e minha mulher negou-se a doar a ninhada. Com muito custo deu um dos filhotes para a amiga.

 

Vladimir e Axel ainda bebês: como doa-los???

Vladimir e Axel ainda bebês: como doa-los???

 

O psicólogo me alertou que eles entram em depressão por causa da ausência prolongada dos donos. Isso nos exclui do convívio social. Quando minha mulher viaja, eu fico com as “crianças”. Este ano fui para o exterior, sozinho. Minha mulher me liga dizendo que a Julia permanecia o tempo todo na janela a minha espera. Tive que interromper a viagem, por causa da dor na consciência.

 

E eu pensei que o bicho-homem fosse o mais complicado.

 

 

*Texto de Zarcillo Barbosa

Eliane Barbosa
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