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O PREFEITO PERFEITO

O PREFEITO PERFEITO


ZARCILLO BARBOSA
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Escreveu o cronista Rubem Braga que “política é a arte de namorar homem”. Quem está no poder ou a ele quer chegar é obrigado a acertos políticos para ganhar eleições.


Ao depois, há que bolinar para poder governar. Mesmo Bolsonaro, que se elegeu com o discurso de não repetir “a velha política”, teve que se curvar diante do “Centrão”, para poder conseguir aprovar a reforma previdenciária, a única que saiu até agora.


Freud (1930) chegou a estudar o ciúme como uma das intercorrências que avassalam o ego, mais exacerbado ainda quando manifestado entre homens.


Ciúme de macho acontece muito na vida pública e é difícil de ser administrado. Que o digam Sérgio Moro, ex-ministro da Justiça, Luiz Henrique Mandetta, da Saúde, seu sucessor  Eduardo Pazuello e a vítima da hora, o vice-presidente Hamilton Mourão.


Os políticos complicam as coisas. Mal sabem que o povo gosta, mesmo, é de coisas simples. O prefeito da minha devoção nem precisa ter glaucos olhos. Basta que cuide dos buracos, colete o lixo com alguma eficiência, pague em dia os funcionários, assegure remédios e atendimento nos postos de saúde e enterre os indigentes. Nem precisa cumprir as promessas faraônicas de campanha.


Administração pública é outra coisa. A pandemia detonou a economia mundial. Em Bauru, como em qualquer outra parte, as dificuldades já são imensas. O futuro prefeito, seja lá quem for, vai precisar demonstrar criatividade para fazer render os recursos que já eram escassos e agora, deixaram de existir.


A primeira virtude de um prefeito é a de ser capaz de estimular a cooperação. Existe a tal de PPP – Parceria Público-Privada -, que até hoje pouca gente sabe do que se trata.


Outra coisa: se Bauru continuar dividida entre periferia e condomínios de luxo, a tendência é a estagnação. O que é pior: não haverá muro que segure.


Em 1915, os bauruenses elegeram como prefeito o médico Luiz Vicente Figueira de Mello. O maior clamor popular, como hoje, era por assistência médica. Tempo de “feia úlcera de Bauru”. Sem dinheiro – o Estado ausente, como sempre – Figueira de Mello uniu-se ao primeiro juiz da Comarca de Bauru, Rodrigo Romeiro. O magistrado ajudou a convocar os empreendedores, entre eles o agrimensor Luiz Gonzaga Falcão que doou uma gleba de três alqueires para dar início à Santa Casa de Misericórdia.


O povo ajudou nas quermesses comprando pipoca, quentão e no leilão do frango assado. Doações aconteceram em todos os níveis e o hospital funcionou.


Os imigrantes fizeram algo parecido na fundação da Beneficência Portuguesa. O problema da leishmaniose cutânea foi resolvido. Entusiasmado, Falcão tomou a si a tarefa de fazer a cidade crescer e abriu a vila que leva o seu nome.


Bauru nasceu e tornou-se grande graça a esse espírito cooperativo do seu povo, guiado pelo exemplo de luta e sacrifício de verdadeiros líderes.


Anos antes a população tinha pressionado os vereadores a transferir a sede da vila de Fortaleza do Espírito Santo para Bauru. Bastou trazer o cofre, em carro de boi. Quem foi o autor da proeza? Foram todos.


Assim a cidade se emancipou e cresceu. O cofre estava vazio. Ninguém estava atrás de dinheiro, mas de espaço para expansão do seu espírito realizador.


Os prefeitos erram ao criar estruturas hierárquicas, autoritárias, autocráticas e ao estimular, ao invés da cooperação, a competitividade no mau sentido.


Das administrações que acompanhei como jornalista, a de Alcides Franciscato (1969-1973) foi o maior exemplo do que estou pretendendo passar. As pessoas eram contagiadas pelo seu entusiasmo sem descanso. Um estimulador nato do empreendedorismo e da cooperação para explorar os nossos potenciais.


Quem sabe, no próximo mandato, ganhe quem ganhar, o prefeito consiga levar a própria comunidade a descobrir coisas fantásticas do que é possível fazer, unidos pela cidadania.


Que a ninfa do bosque o inspire.

Zarcillo Barbosa é jornalista
proximarota
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