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O DIA EM QUE A TERRA PAROU

O DIA EM QUE A TERRA PAROU


ZARCILLO BARBOSA
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A pandemia do corona vírus provocou um apagão mundial no esporte, nas escolas, nas reuniões sociais e obrigou à quarentena, milhões de pessoas. Pensei logo na canção de Raul Seixas que profetizou, há mais de quarenta anos, que a Terra iria mesmo parar.


As pessoas do planeta inteiro em casa. O empregado não sai para o trabalho, a dona de casa não foi comprar pão, porque o padeiro também não estava lá; o ladrão não saiu para roubar pois sabia que não ia ter onde gastar. A igreja fechada, com o padre em casa, de resguardo.


Tivemos dois filmes de ficção, sob o mesmo título, um de Robert Wise e o mais recente, de 2008, dirigido por Scott Derrikson. O asteroide se chocaria com a Terra, todos esperam pelo fim e o que acontece é o pouso suave no Central Park de uma nave intergaláctica. Dela sai um robô gigante, Gort, uma espécie de vírus feito máquina. Recebido à bala. Recuperado do susto, o alienígena explica que sua missão é rápida. Uma espécie de Arca de Noé. Veio pegar exemplares de terráqueos que valham à pena e encaminhar o extermínio do resto da raça humana.


O motivo da condenação drástica à “destruição do destruído” foi o abuso continuado do direito de estragar este planeta, um dos poucos do Universo com suporte de vida complexa. O Deus universal havia nos dado a oportunidade de ter “vida inteligente”, e não soubemos aproveitar o privilégio.


Enquanto esperamos pelo vírus do Ipiranga, Rodrigo Maia e Paulo Guedes trocam farpas. O Congresso amplia a despesa em meio ao derretimento bursátil.  Bolsonaro, depois de garantir que é tudo “fantasia”, aparece na televisão ao lado do ministro da Saúde Henrique Mandetta, ambos de máscara. Prudente, Bolsonaro procura desencorajar pessoas a manifestações de rua neste domingo, em apoio ao governo. Independente como todo guru, Olavo de Carvalho diz que mantém a ida do povo às ruas – foda-se o corona. Cancela o cancelado.


Em “Ensaio sobre a Cegueira”, de Saramago, a população é submetida a um vírus desconhecido que tira a visão de todos. Uma “cegueira branca”, moral e física que condena os pacientes a se tornarem seres cada vez mais brutos e ignorantes, cada vez menos humanos. Esse vírus causa pânico.


Chegamos a Michel Foucault com a sua “Biopolítica”. Grosso modo,  o filósofo, o poder “democrático” organiza a política da vida e regula que os corpos podem ser descartáveis. Tudo de acordo com a conveniência da elite.  Se não existem fronteiras reais ou imaginárias ao vírus, pouco se me dá. O importante é como aparecer aos olhos da Opinião Pública.  Exibir-se como estadista decidido, que proíbe o direito de ir e vir. Passa a ser secundário o desfile de milhares de mulheres sobreviventes do zikavirus, com seus filhos sem cérebro. Insignificante, diante da tragédia anunciada, os 35 milhões de brasileiros que não têm nem água para beber. Os 100 milhões – metade da população – que não tem esgoto coletado e muito menos tratado, como é o caso chocante de Bauru.


O povo, sim, demonstra sua sensibilidade. Em Roma e Nápoles, as famílias de quarentena saem às varandas e janelas para cantar canções populares. O coro à distância é uma ópera caseira.  Uma das canções, Bella Ciao, foi símbolo da resistência na II Guerra – uma bela manhã acordei e encontrei um invasor. Era o nazismo. Diz uma estrofe, de tradução livre: “Porque sinto que vou morrer/ me enterrem no alto das montanhas/ sob a sombra de uma flor”.


A domani! Buona notte – gritam aos seus vizinhos, cada um da sua prisão domiciliar.


Zarcillo Barbosa é jornalista
proximarota
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