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A CACHAÇA DO PAPA

A CACHAÇA DO PAPA

ZARCILLO BARBOSA


Ao contrário do que disse o papa Francisco, a cachaça sempre esteve muito ligada à religião no Brasil. Antes do primeiro gole, a tradição manda derramar um pouco da aguardente dizendo que “é para o santo”. Só pode ser para São Benedito, filho de escravo, considerado o padroeiro dos engenhos de alambique. Outra hipótese seria a de brindar Santo Onofre, protetor dos bêbados inocentes.


Também nas religiões de matrizes africanas, como o Candomblé, são comuns as oferendas aos orixás, pedindo proteção. Pombas-gira e exus são entidades que gostam do marafo, como é conhecida a bebida alcóolica em iorubá, uma das línguas oficiais nos terreiros.


Conhecido pelo seu bom humor, Francisco pilheriou ao se dirigir a um padre brasileiro no Vaticano, que lhe pediu uma bênção especial para o nosso povo que tanto sofre com a pandemia, o desemprego e a fome: “Vocês não têm salvação. Muita cachaça e nada de oração”.


A gente tem rezado muito pelos parentes e amigos colhidos pelo Covid 19 e, mais ainda, por aqueles que não resistiram. Nada há de pecaminoso na bebida, diz a Bíblia. O condenado é o excesso, que leva à falta de controle, ao escândalo e ao vício. Em dia de festa e comemoração, o ato de beber chama a abundância (Isaias 56:12).


Com o vinho ou com “bebida forte”, “alegra-te e a tua casa” (Deuteronômio 14:26). Em seu primeiro milagre, Jesus transformou a água em vinho, nas Bodas de Canaã, para trazer de volta a alegria e o gozo para nossas vidas (João 2:1)


O quentão nas festas Santo Antônio, São João e São Pedro somente pode ser um louvor à tríade. E a nossa caipirinha ganhou o mundo e está na lista de coquetéis dos mais famosos barmen. Indispensável como abrideira na feijoada.  Faz parte da nossa identidade cultural, relacionada ao folclore, às festas populares, ao futebol, a religião. Está integrada na medicina popular, na prática dos curandeiros. Macerada com essa água-que-passarinho-não-bebe ou infusões de raízes e ervas, “é um santo remédio”. E mata bicho.


Os intelectuais da Semana de Arte Moderna de 1922, deram o primeiro impulso para colocar a cachaça como bebida, também, da elite. Estavam preocupados no redescobrimento da brasilidade, com a intenção de nos livrar do colonialismo cultural.


Hoje temos cachaça, como a Havana, de Salinas (MG), de 75 anos, edição numerada, que custa R$ 4.900,00. Do mesmo produtor, Anísio Santiago, exemplares de colecionadores chegaram a ser arrematados por R$ 20 mil. São aguardentes que só podem ser tomadas “de joelhos”, em perfil de oração.


A Caninha 51 é o destilado mais vendido no mundo, à frente do Johnnie Walker e o Run Bacardi. No Brasil, entre 19h e 21h, são consumidas 100 milhões de doses do nosso goró pelo povo trabalhador, como relaxante ou para abrir o apetite. São mais de 30 mil alambiques no país, que geram 450 mil empregos. Nestes últimos 12 meses de pandemia ninguém perdeu emprego. Pelo contrário, o consumo aumentou como paliativo ou até como forma de “vacina” contra o vírus.


A memória nacional é o prolongamento da memória coletiva. Até o papa Francisco cantou um verso da marchinha de carnaval de Mirabeau Pinheiro, “Você pensa que cachaça é água?” (1953)


E assim termina a letra: “Pode me faltar tudo na vida/ Arroz, feijão e pão/ Só não quero que me falte? A danada da cachaça”.


O folclorista Câmara Cascudo, chegou a anotar 132 diferentes nomes para a “marvada”. Vai de abençoada, água benta, até zuninga. Nos rótulos das garrafas os nomes são os mais criativos, como a “Amansa Corno”. Logo teremos a Cachaça do Papa, ou a Caninha Francisco, que já virá benta pelo homenageado. 



Zarcillo Barbosa é jornalista
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