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BAURU, DOS ANOS DOURADOS

BAURU, DOS ANOS DOURADOS

ZARCILLO BARBOSA


Em 1960, em Bauru ainda se fazia “footing” na Rua Batista de Carvalho, sem calçadão.


Os rapazes, de terno e gravata, conversavam diante das vitrinas iluminadas e as moças andavam de um lado para o outro lançando olhares furtivos. Paquera da época.


A divisão em classes sociais era evidente e aceita como natural. Os mais ricos na Batista, os mais pobres na 1° de Agosto e os negros na Praça Ruy Barbosa.


A pílula anticoncepcional já havia aparecido, mas só as mulheres casadas tinham coragem de entrar na Farmácia do Julinho para comprá-la. As solteiras ainda não tinham aprendido a pecar sem conceber. Nem havia motel…


Ao final da missa de domingo na Catedral, os namorados marcavam encontro sob o relógio da Casa Luzitana, nossa loja de departamentos, precursora dos shoppings. Automóvel Clube de Bauru e Tênis Clube disputavam a preferência das elites. A baixa renda frequentava o Paulista e os Bancários. A piscina do Jesus Arena, mais democrática, estava aberta a todos mediante pequena taxa. Os bailes eram animados por grandes orquestras como a de Sílvio Mazzuca, Osmar Milani, Nelson de Tupã e Continental de Jaú. Os bailes de formatura da Faculdade de Direito e os de Réveillon exigiam smoking e vestidos longos.


A duas quadras do centro da cidade, na Rua Costa Ribeiro (hoje Presidente Kennedy), a “zona” fazia a alegria dos boêmios e dos caixeiros-viajantes. A Casa da Eny e o cabaré Paris Noturno dominavam a noite sempre movimentada.


Bauru orgulhava-se da sua emissora de Rádio PRG-8 e da “única estação de televisão do interior da América Latina”, com geração própria de imagens.


A cidade ainda não havia chegado aos 100 mil habitantes. As disputas políticas eram até civilizadas. Nicolinha, deputado estadual e Irineu Bastos, o prefeito.


No Café Juca-Pato, na Batista de Carvalho, berço da rede Fran´s, os homens se reuniam para contar e ouvir as últimas fofocas. As mulheres passavam ao largo daquele serpentário. Usavam saias rodadas abaixo do joelho. A última moda para os homens era a calça de nycron, “as únicas que não amarrotam e nunca perdem o vinco”.


Era assim o Bauru de 1960. Começavam os chamados Anos Dourados. O mundo saía da fase do pós-guerra. Começava uma dinâmica mais acelerada com os avanços tecnológicos.


A corrida espacial entra no jogo ideológico e a guerra fria atinge o auge com a disputa entre direita e esquerda pelo domínio político e econômico do Planeta.


Tínhamos um orgulho tardio de fabricar automóveis. O Fusca dominava a paisagem urbana. Estávamos na época pré-Beatles e o rock começava a dominar a moçada com Elvis Presley e Paul Anka. O grande fenômeno da música pop brotava da voz de adolescente de Cely Campelo com as baladas ingênuas Estúpido Cupido e Biquini de Bolinha Amarelinha.


No Bauru daquele tempo, ainda se ia para São Paulo de trem azul, com ar condicionado, carros-leito e restaurante. Sempre no horário. As três ferrovias – Noroeste, Paulista e Sorocaba – geravam riquezas e empregos.


A paralisia infantil, a tuberculose e o amarelão assustavam, mas nem tanto quanto a Covid-19


Sessenta anos se passaram. Parece que foi ontem.


A vida é um sopro.


(Homenagem a Bruno Rossi, criador do grupo “História de Bauru”)

proximarota
2 Comentários
  • Maria José P da Rocha

    Nos anos 70 também havia footing na Batista… e o cenário havia mudado um pouco, mas a Casa da Eni, o Tênis Clube e outros ainda figuravam na vida dos bauruenses.
    Existia a Lojas Americanas, onde podíamos nos deliciar com a “banana split”, uma maravilha!
    Bons tempos…mas Bauru é tudo de bom hoje também! Amo.

    19/04/2021 às 12:35 Responder
  • Luiz Buccalon Netto

    Igual a Zarcillo,
    somente
    ZARCILLO BARBOSA.

    Parabéns pelos textos.

    19/04/2021 às 15:23 Responder

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