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VIENA, COM SABOR DE LINGUIÇA

VIENA, COM SABOR DE LINGUIÇA

ZARCILLO BARBOSA
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Há 150 anos, Johann Strauss inspirou-se no segundo maior rio da Europa para compor a imortal valsa Danúbio Azul.  De azul ele, rio, não tem nada. Os artistas é que conseguem ver coisas que a gente nem sequer imagina. O autor viu o céu refletido nas águas cristalinas. Daí o “azul”.


Quando chega a Viena, o Danúbio tem um clima de praia, nos meses mais quentes do ano, como neste final de agosto. Os jovens bem-nascidos se reúnem no Donaukanal, um balneário artificial, sofisticado e caro. Um jornalista brasileiro gozador, chamou-o de “Copacagrana”. As menininhas desinibidas praticam o topless nas suas margens de areia, por onde se espalham bares e restaurantes animadíssimos.


Esse é o outro lado da capital imperial da Europa. Muito além das confeitarias e dos seus luxuosos salões art-noveau.


Nesta minha terceira vinda a Viena, consegui entrar na confeitaria do Hotel Sacher, que é de 1832. Lá, são servidos os doces mais saborosos do planeta. Pedi uma sachertort, feita com chocolate e geleia de damasco, finalizada com uma generosa (e divina) capa de chocolate. Café com licor e chantilly, para acompanhar. Valeram os 36 euros.


Na primeira vez que estive em Viena, na condição de mochileiro, nem tive coragem de enfrentar o garçom do Sacher. Fiquei em frente, observando o entra-e-sai das pessoas elegantes, todas locais.  No mesmo lado da rua, operários cavavam um buraco para consertar o vazamento da tubulação. Terminado o serviço, lavaram as mãos na caixa d’água do próprio caminhão, despiram-se dos macacões de sobre as roupas civis e foram se sentar em uma das mesas da confeitaria. Cada um comeu o que lhe deu na telha. Fiquei com inveja. Um operário, na Áustria, ganha o suficiente para desfrutar do bom e do melhor. A diferença salarial entre um operário e um burocrata de alta linhagem é pequena.


Hoje, as confeitarias fin-de-siècle foram invadidas por coreanos e chineses que não estão nem aí com o quanto custa. Comem com avidez. Parecem não distinguir os finos bocados vienenses do faláfel, do quibe frito e da pizza em pedaços dos fast-food.  


O coração de Viena está na Catedral de Santo Estevão, com seu belo telhado colorido em ziguezague. Bem em frente está uma loja da Manner, marca dos melhores waffers feitos na hora – o de avelã é imperdível.


No tempo em que eu era mais pobre, me contentava com o cachorro-quente com a típica salsicha bratwurst grelhada. O melhor é o da Bitzinger Würstelstand, com seu quiosque decorado com um imenso coelho verde, colado à Galeria Albertina.


Logo atrás está o complexo de palácios que abrigou a dinastia dos Habsburgo, desde o século 13 até o século 20. Tudo no “centrão”, para ser percorrido a pé. O Museu de Sissi, a imperatriz, está logo ali. O acervo de roupas e joias é fascinante. Até o vestido que ela usou no casamento com Francisco I pode ser visto numa vitrine.


De Viena, mais do que o Danúbio, as valsas de Strauss e os palácios, sempre me lembrarei do sabor dos seus doces e o cheiro de linguiça grelhada. É o meu gosto estético vencido pelos meus mais primitivos instintos. Que fazer…


Zarcillo Barbosa é jornalista
proximarota
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