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RECEITA PARA SE REELEGER

RECEITA PARA SE REELEGER

ZARCILLO BARBOSA
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Os observadores políticos apontam o “distanciamento do povo”, como a causa principal da não-reeleição. Todos sabem disso. Quase 70% dos prefeitos brasileiros lograram sucesso na tentativa de um novo mandato.


A classe média ascendente, há muito deixou de decidir eleições em Bauru. Com o impacto dos novos meios, surgiram os influenciadores em rede, que também já estão em decadência. Desde a eleição de Edson Gasparini, esquerdista moderado, inverteram-se os papeis e os periféricos é que constroem a base da Opinião Pública.  


A massa é inorgânica, sem ideologias. Age por instinto e se vinga daqueles que a esqueceu ou deram pouca importância a sua sofrida existência. 


Se esse foi o pecado do prefeito Clodoaldo Gazzetta, blindado dentro do seu gabinete, já não vem mais ao caso. A decisão dos eleitores foi tomada, pelo menos pela maioria dos votos válidos. Agora, só os resta esperar que a escolha vá além do exotismo. A prefeita Suéllen ganhou e vai enfrentar todos os percalços provocados pela pandemia, com suas repercussões devastadoras na economia, no emprego, na saúde e na renda. Boas intenções não se contabilizam. Quem puder ajudar, que pelo menos não atrapalhe, enquanto as ações públicas forem pautadas pela ética e a moralidade. É só copiar as fórmulas prontas. Sem dinheiro, governar na base da tentativa/erro leva ao desperdício.


Manter-se próximo do povo para, pelo menos ouvir o que tem a dizer, sempre será uma boa prática. Seria utópico tentar resolver todos os problemas. Mas, alguém tem que escutar os clamores.


Durante a campanha, ouvi no Café do Raduan a queixa de um candidato que já não aguentava mais tomar café em caneca de alumínio amassada e comer bolo de fubá que mal passava no gorgomilo, de tão seco.


Dividir o prato é símbolo universal que cria vínculo entre pares e díspares.


Quando político, Alcides Franciscato virou mito com suas visitas de casa em casa. Na mais longínqua periferia todos os esperavam com aquela certeza do “ele virá”.


Um dia o morador de um barraco ofereceu-lhe bunda de içá com farofa, como se fosse a melhor das iguarias. Chico Dalmédico, assessor de todas as horas, adiantou-se e pegou a louça desbeiçada dizendo que era o seu “prato preferido”. Comeu tudo e repetiu até esvaziar a travessa.


Tamanho apetite mais os rasgados elogios à arte do cozinheiro deixaram a família orgulhosa. Mais tarde Chico, longe dali, explicou aos companheiros entre engulhos, como encontrara coragem para enfrentar o grude. “Se eu não comesse ia sobrar por doutor”. “Doutor” era o tratamento que ele, respeitosamente, reservava a Franciscato. Foi o ato mais comovente de demonstração de fidelidade política que presenciei no jornalismo.


A estratégia de conquistar eleitores de Arlindo Figueiredo, consistia em levar a própria comida aos bate-papos nos bairros. Como bom lusitano mandava comprar sardinhas. A churrasqueira portátil e as raquetes de assar na brasa garantiam a festa. Maior sucesso. Terminada a campanha à Prefeitura o assessor de Arlindo teve que vender o carro como sucata porque não havia quem tirasse o cheiro de peixe impregnado nos bancos  e na forração.


Fernando Henrique, em campanha presidencial lançou-se em romaria eleitoral pelo Nordeste. Sem saber, comeu a famosa buchada de bode – preparo feito com sangue, fígado e tripas involucradas no estômago do crapino. Disseram a FHC que era um prato francês, “tripés à la mode de Caen”. Devorada com aparente apetite em Petrolina, entrou para o folclore político nacional, com visto de permanência mais extenso que passeios de jegue e outas estripulias com o eleitorado local.


O povo sem-geladeira, mas com celular e tevê, tem poder de decisão. O dono da casa vai se sentir ofendido se o candidato, uma vez eleito, deixar de visita-lo. Seria uma traição contra aquele que ofereceu ao então candidato, a comida dos próprios filhos. Uma vez eleito, virou as costas. É o juízo.


Quem quiser se reeleger tem que voltar, periodicamente, às franjas da cidade. Nem será de tanta importância se o prometido asfalto ainda não chegou, contanto que coma: em público, com o público e com gosto.



Zarcillo Barbosa é jornalista
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