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DRAMA, OBSESSÃO E VELHICE

DRAMA, OBSESSÃO E VELHICE

ZARCILLO BARBOSA



O escritor Nelson Rodrigues prezava muito os seus defeitos. Dizia que eles o ajudam a viver.


Sem fazer mistério das suas neuroses, afirmava que “só os imbecis não as tem”.


As obras teatrais que deixou estão repletas de personagens obsessivos, movidos por compulsões atrozes e impulsos selvagens. O autor explora os instintos mais baixos da condição humana. Seus personagens esbravejam, esperneiam, cultivam a arte da traição, da calúnia e do escândalo. 


Se vivo, Nelson Rodrigues iria se esbaldar com a história dramática e trágica da pastora, cantora gospel e deputada federal Flordelis, acusada de tramar a morte do marido Anderson. Também pastor, a vítima fora filho adotivo de Flordelis e genro. Namorou, antes de se casar com a algoz, uma de suas filhas biológicas. O casal tinha 55 filhos adotados, a maioria envolvidos na trama assassina. Tentativas de envenenamento e simulação de latrocínio. Traições, assassinato, brigas, dinheiro, incesto, escândalos e religião.


“Quero detalhes, DETALHES! ” – Exigiria Nelson Rodrigues na redação do seu jornal, para subsidiar o apronto de mais uma obra-prima da dramaturgia. A vida dele mesmo foi uma tragédia, com o nascimento de uma filha cega, surda e muda. O irmão talentoso, foi assassinado dentro do jornal por uma mulher que se julgou ultrajada por comentários que ele, Nelson, escrevera. Ele é que deveria ter sido fatalmente baleado.


A vida real tem componentes que escapam à imaginação, mesmo a dos mais criativos escritores.


Todos nós temos nossos demônios interiores. São entidade espirituais superiores a nós, a quem obedecemos sem saber. Um deles é a obsessão. Nelson contemporizava dizendo que sem uma boa dose de obsessão, não se faz coisa alguma. “Não há santo, herói, gênio ou pulha sem ideias fixas”. São elas que nos empurram. Que nos fazem viver. Que traçam um sentido para a existência. A obsessão, dizia Nelson, nada tem a ver com mente criminosa. Nada que envergonhe, ao contrário, é um valor que devemos cultivar.


Também tive e tenho minhas obsessões, no sentido de apego (ou desapego) exagerado a um sentimento, a um objeto ou uma ideia desarrazoada. Não gosto de me desfazer das coisas que para mim tiveram algum significado, mesmo que seja um velho pião de madeira carcomida, do tempo de infância. Detesto autoritarismo, nas suas mais diversas representações. Pode acontecer em forma de bula de remédio, de planilha, de relatório, de manuais ou livros de autoajuda, desses que têm a pretensão de reprogramar o indivíduo, como se fosse uma máquina.


Outra obsessão comum é com a velhice. O que é terrível quando se envelhece é que se permanece jovem.


Todas essas facilidades dadas ao idoso como, privilégio de estacionamento, de atendimento nos guichês e remédios de graça parecem acentuar mais ainda que estejamos perto do fim.


Já que estão no mundo de lambujem, e vão durar pouco, que os velhinhos pelo menos pensem que estão levando vantagem – parece ser esta a intenção das autoridades.


“Há uma vergonha da velhice” – Nelson se lamentava. Reproduziu, numa de suas crônicas, o que ouviu de uma jovem senhora: “Tenho mais medo da velhice do que da morte”. Comentou em seguida: “Ela quer ser defunta e não quer ser velha”.


Quem sabe resida aí a obsessão dos machos-velhos de cobiçarem as jovens bonitas, como se tivessem lambendo-as com os olhos. Seria uma forma de dizer a si mesmo: “já fui bom nisso”.


O pior na velhice, é conservar os defeitos da juventude. De minha parte, nestes tempos de perda de pessoas queridas para o Covid 19, gostaria de ter a esperança como obsessão. Única forma de resistir à crueldade do mundo e do viver.


Desta obsessão, infelizmente, me curei.

Zarcillo Barbosa é jornalista
proximarota
1 Comentário
  • Zuleika Lemos Gonsalves

    👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏

    20/09/2020 às 12:42 Responder

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