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O TEMPO, ESSE DEVORADOR DE COISAS

O TEMPO, ESSE DEVORADOR DE COISAS


ZARCILLO BARBOSA
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Minha tia Nicota dizia – “Velho é quem é mais velho do que eu”. Viúva, vivia feliz na casa da única filha, ajudava nos serviços desde o café da manhã até o jantar. Depois tomava seu banho, punha o vestido de estampas florais, brincos, o colar de pérolas falsas, passava batom, Leite de Rosas para as manchas da face e rouge – aquele cosmético vermelho para colorir as maçãs do rosto. Cumprido o ritual, punha-se no sofá em frente à televisão.


Gostava de estar bem informada para poder discutir os assuntos em pauta com as vizinhas junto à cerca do quintal. Foi assim que se apaixonou pelo William Bonner. Flertava com o narrador, respondia aos seus sorrisos, erguia o polegar a cada comentário, fazia biquinhos com os lábios como se estivesse mandando beijos e dava resposta ao “boa noite” do apresentador. Em seguida ia dormir contente à espera de um novo amanhecer.

 
Um dia morreu a filha, após breve enfermidade. A religião lhe deu sustentação psicológica e consolo. Devota de Nossa Senhora da Aparecida, comungava todos os domingos e fazia peregrinações anuais ao santuário. Tinha certeza que a Durvalina estava no céu cercada pelos anjos.


O genro, agora senhor absoluto da casa, era por ela intensamente vigiado. Minha tia deu de ter ciúmes do viúvo da filha. Queria saber o nome, endereço e RG de todas as mulheres que telefonavam. Bastava o homem pôr o paletó sobre os ombros e lá vinham as perguntas: “Aonde vai?”, “Fazer o quê?”, “Que horas vai voltar?” As respostas vinham em sons guturais, como latidos de cachorro.

 
Até que um dia o genro decidiu interna-la, numa “Casa de Repouso”.


Tia Nicola era bastante lúcida para os seus 87 anos. Tinha um raciocínio cartesiano incompatível com os colegas senis lá do asilo, incapazes de entende-la quando se dispunha a discutir os problemas maiores da nacionalidade.


A direção do abrigo impunha um toque de recolher às 8 da noite. Impossível dormir sem namorar o William. Toda noite escapava de fininho do dormitório para a sala de televisão. Equilibrava-se numa banqueta sobre a cadeira para ligar o televisor lá no alto. Terminado o Jornal Nacional, voltava para a cama.


Um dia despencou com os seus 80 quilos, fraturou uma costela que lhe perfurou o pulmão. Entrevada na cama, sem televisão, nem quis lutar para reabilitar-se. Preferiu ir ao encontro da filha.


No Brasil, se costuma dizer: “Quem gosta de velho é asilo”. Ninguém pergunta se velho gosta de asilo.


Péricles recitava há dois mil e quinhentos anos: “Juventus Ventus”. A juventude é como o vento. Virgílio chamava o tempo de “devorador das coisas”. Não há como retardá-lo. Melhor então aproveitá-lo da forma possível, quando estão dispostos a aturá-lo, ou simplesmente relendo os clássicos e ouvindo boa música. Escrever e publicar também é um ótimo exercício. Um dia vão acha-lo ultrapassado só porque utilizou uma palavra caída em desuso, como “sirigaita”.


É preciso abstrair-se das intolerâncias humanas para não ter o fim melancólico da tia Nicota. Consumiu-se por dentro porque não soube substituir o papo matinal com as vizinhas de quintal, e o monólogo televisivo, pelo diálogo com seus próprios fantasmas.



*Zarcillo Barbosa é jornalista

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