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O CÃO COM NOME INGLÊS

O CÃO COM NOME INGLÊS

ZARCILLO BARBBOSA
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A nova linguagem em tempo de coronavírus


O coronavírus contamina, não só seres humanos como também a própria língua portuguesa. A lanchonete (anglicismo que vem de lunch – almoço) avisa pelas redes sociais que você pode fazer pedido delivery pelo app. Até vacinas contra a gripe é aplicada nos postos de saúde pelo sistema drive thru, uma forma de facilitar a vida dos cidadãos em tempos de lockdown.


Certas expressões também entram para o léxico e serão sempre lembradas quando nos referirmos ao Covid ou qualquer outra pandemia futura (cruz credo pé de pato magalô três vezes). Quem sabe possa nos livrar do mal a invocação do nome de uma planta trazida pelos escravos da África, usada em umbanda. “Distanciamento social”, “achatamento da curva”. São expressões que, daqui para frente, vão nos lembrar recortes da realidade vivida.

 
Há quem veja, nessa invasão, um enriquecimento da língua em processo permanente de expansão. Os idiomas precisam aprender coisas importantes com o inglês. Porém,  precisamos nos precaver: suspeita-se que certas tendências são típicas de um certo colonialismo cultural.


Num ímpeto nativista, alguns filólogos propõem que se adote aqui o que já se faz em Portugal – os nomes estrangeiros, sempre que possível, são traduzidos para o português. Lá, eles não dizem home office e sim, teletrabalho. Rainha Elizabeth é Isabel, Charles vira Carlos, e assim por diante.


Quando Pedro Bloch quis encenar em Lisboa a sua peça Society em Baby-doll, os portugueses obrigaram-no a mudar o título para “Sociedade de Pijama”. E estamos conversados.


O título do filme Ben-Hur transformou-se em “O charreteiro infernal”, por causa da grande corrida de bigas. A regra vale também para nomes substantivados e objetos. Chiclets, lá, são gomas elásticas; trem, que vem de train, é combóio. O nosso extinto bonde (de bond, bilhete), lá na santa terrinha, onde é preservado, chama-se elétrico. Sandwich foi aportuguesado para sandes, uma palavra feminina; mouse é rato e site é sítio, pois não.


Nos Estados Unidos, que detêm a hegemonia da indústria cultural, esse cuidado também existe. Parece que os americanos têm medo de serem colonizados por nós, bárbaros. Lembro-me que o The New York Times traduzia Carlinhos Cachoeira por Charlie Waterfall. Outro marginal já fora de circulação, Fernandinho Beira-Mar, era Freddy Sea-shore.


A prevalecer o ímpeto nativista fico imaginando como iríamos traduzir certos nomes de gente famosa. O filósofo Ludwig Feuerbach viraria Ludovico Riacho de Fogo. O sociólogo Max Weber seria chamado de Max Tecelão.


É justamente no cinema que essa mudança iria causar um grande reboliço. Não percam! Filme estrelado por Clint Floresta do Oriente (Clint Eastwood). A própria meca do cinema passaria a ser conhecida por Bosque de Azevinhos (Hollywood), uma conífera que dá umas frutinhas vermelhas muito usadas na decoração de Natal. Os admiradores das façanhas do agente 007, James Bond, vão ter que se conformar em vê-lo reduzido a Jaime Cola. Brad Pitt passaria a ser anunciado no Brasil como Cova no Chão para Estaca. Que tal Vera Fischer transformada em Vera Pescador? Vera Zimmermann em Vera Carpinteiro?


Antes do isolamento social, saí para passear com o meu mini-toy (mini-brinquedo) pelas ruas do bairro e topei com um boy (rapaz) com seu pitbull (briga com touro). Imediatamente peguei o meu pet (queridinho, protegido) no colo para livrá-lo de um possível massacre.


– Qual o nome dele? – Perguntou-me o boy.


– Juquinha.


–  O meu tem nome mais bonito: Hunter! (Caçador).


– Em compensação o meu você nem precisa chamar pelo nome. Basta latir que ele atende.



Nosso saudoso Juquinha

*Zarcillo Barbosa é jornalista.

proximarota
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