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O BEIJO, SEU SABOR E SENTIDO

O BEIJO, SEU SABOR E SENTIDO


ZARCILLO BARBOSA
💋

 
Nos anos 1950, um repórter do jornal O Globo, Pereira Rego, foi atropelado por um ônibus no Rio de Janeiro.


No chão, o velho jornalista percebeu que estava perto da morte e pediu um beijo a uma jovem que tentava socorrê-lo.


Nelson Rodrigues aproveitou-se do fato e mudou “um pouquinho” a história. Concebeu a peça teatral O Beijo no Asfalto, onde o atropelado é socorrido por um jovem de alma pura e pede a ele o beijo derradeiro.


O repórter do jornal Última Hora presencia o beijo na boca entre dois homens e, junto com um delegado corrupto, transforma a história do último desejo de um agonizante em manchete.


O sensacionalismo do jornal muda completamente os fatos, retratando o jovem como gay que empurrou o amante e depois o beijou, arrependido. A vida de Arandir se transforma num inferno e nem mesmo sua mulher acredita que ele é inocente. De marido devotado ele passou, num passe de mágica, a homossexual enrustido.


O Brasil inteiro ficou chocado com a carga da maldição do beijo no asfalto. A sociedade sabia que havia homens que se beijavam, mas nunca isso foi trazido a público. Um beijo de piedade transformado num caso amoroso e sinistro entre dois homens. Nem se considerou a regra da cultura ocidental de jamais se negar o último pedido a alguém que vai morrer.


Hoje, homossexuais já protestaram com beijaços em público contra o conservadorismo. Aqui mesmo, na Praça Ruy Barbosa, anos atrás, pela agressão sofrida por uma travesti.


O prefeito Marcelo Crivella, do Rio de Janeiro, caiu no ridículo ao mandar fiscais retirarem da Bienal do Livro, uma história em quadrinhos contendo ilustrações do beijo entre os heróis “Vingadores”. A Folha de S Paulo, numa capa sobre os fatos, publicou bem grande, a cena do beijo gay. Até a Suprema Corte se pronunciou repelindo o ato de censura.


Em Bauru, todos os dias são registrados casamentos entre pessoas do mesmo sexo, culminando com aquele beijo do “unidos e felizes para sempre”.


Assisti, por acaso, na Times Square, as comemorações do “beijo da paz”. Fizeram uma enorme estátua, em acrílico, de uma cena de beijo que ficou famosa por ter sido congelada numa foto de Alfred Eisenstaedt, da revista Life. Aconteceu em 1945, quando anunciada a rendição do Japão e o fim da II Guerra Mundial. Um marinheiro, meio bêbado, atarracou uma enfermeira na praça e pespegou-lhe um beijaço de dois minutos, à força.


Se fosse hoje o marujo correria o risco de ser processado por assédio sexual. Eles jamais se encontraram. A enfermeira, com 90 anos, voltou à cena. Apareceram onze homens que juraram ser o mesmo da foto.


Vi, num documentário, que os esquimós preferem esfregar a ponta do nariz entre parceiros. “Para não se contaminarem”.


Mais do que qualquer outro gesto de carinho, o beijo tem uma metalinguagem. Ele fala, protesta, confidencia e revela. Quem viu a estátua de autoria de Auguste Rodin, no Jardim das Tulherias, sente o seu poder discursivo. O bronze eterniza o beijo de dois amantes, expõe os delírios sexuais do escultor com Camille Claudel.


Há amigos que eu beijo no rosto, em sinal de respeito e admiração.


A meninada anda explorando muito o “selinho relâmpago”, que já conquistou até o status de inocente. Selam-se tudo, a qualquer momento e a qualquer pretexto. Até em gol do Corinthians.


São novas formas de expressão e é preciso estar atento para não ser considerado “por fora”.


Ao contrário das palavras, que servem tanto para revelar verdades quanto para dizer mentiras, o beijo não engana. Jesus deve ter sentido a frieza dos lábios de Judas na face direita, quando vaticinou que ele iria traí-lo.


Zarcillo Barbosa é jornalista
proximarota
2 Comentários
  • Mara algodoal Vieira

    Adorei como sempre este artigo Um beijo e Parabéns 👏👏👏👏👏👏

    05/10/2019 às 09:57 Responder
    • proximarota

      ❤️❤️❤️

      05/10/2019 às 10:11 Responder

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