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Nem as margens ouviram

Nem as margens ouviram

ZARCILLO BARBOSA
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Naquele “instante”, sete de setembro de 1822, a repercussão do “Grito do Ipiranga” foi zero – contam os pesquisadores.


Dos 53 jornais brasileiros em circulação, não se encontra menções ao acontecido às margens plácidas do riacho Ipiranga.


A imprensa não captou ecos do “brado retumbante”.


Tudo bem, se os males do Brasil fossem apenas estes. Todo país precisa de heróis e momentos de glória. Naquele dia, D. Pedro tinha 23 anos e estava a caminho da cidade de São Paulo. Alguma coisa que comera no litoral provocou distúrbios intestinais ao príncipe. Durante a subida da Serra do Mar, precisou correr várias vezes para o matagal. Num desses momentos, de mau-humor, chegaram cartas de Portugal trazidas pelo alferes.


A Corte reclamava por mais eficiência no trato dos interesses da Matriz. Ordenava a volta do rapazelho para completar estudos em Portugal. Ou seja, civilizar-se para estar altura do cargo.


Seguindo conselhos de José Bonifácio e da sua mulher Leopoldina, D. Pedro negou-se à condição de simples delegado da Corte. Melhor assumir de vez o país que, de tão grande, poderia ser considerado Império.


A visão idealizada de Sete de Setembro é consagrada no quadro de Pedro Américo, sessenta anos mais tarde. Na vida real, o príncipe montava uma mula baia, único meio de transporte possível na Serra do Mar. Nada a ver com o garboso cavalo castanho da pintura. O figurino dos Dragões da Independência ainda estava por ser inventado.


A divisa “Independência ou Morte” também foi criada depois, por decreto.


Nada disso tira os méritos do príncipe e dos que o rodeavam. Para muitos, o interesse maior era o de faturar benefícios econômicos com a autonomia.


O verde-amarelo da bandeira foi escolhido por serem as cores dos Bragança e dos Habsburgo, dinastia a qual pertencia d. Leopoldina, mulher de D. Pedro, que era austríaca. No Grupo Escolar, aprendia que o verde representava nossas matas, hoje em chamas; e o amarelo, o nosso ouro, nossas riquezas, tão vilipendiadas.

 
Hoje, sabemos que o verde-amarelo serve para rompantes de patriotismo chinfrim. Collor de Mello invocou nossas cores na tentativa de safar-se do impeachment. O povo respondeu com luto. Luciano Hang, da Havan, quer vender mais e aliviar a pressão do fisco; Zé Carioca, foi uma criação de Walt Disney como esforço de guerra para criar um clima de boa vizinhança. O presidente Bolsonaro invoca o verdeamarelismo como se fora um grito de “A Amazônia é Nossa”. Mesmo que dela venhamos a herdar somente cinzas.


Neste país, onde ainda se chicoteia um negro que roubou barras de chocolate; onde se fazem churrasco para satisfazer estômagos vazios com a carne da baleia encalhada na praia, os verdadeiros patriotas ainda têm muito a fazer.  Rejeitar a censura a livros, que é o exemplo clássico do obscurantismo. A última queima foi ordenada por Hitler.


É preciso cuidado. No século 18, o pensador inglês Samuel Johnson já alertava: “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. No século 20, Millôr emendava: “No Brasil, é o primeiro”.



Zarcillo Barbosa é jornalista

proximarota
2 Comentários
  • Roberto Magalhães

    Muito bom. Humor ácido e bem contextuado. Parabéns, Zarcillo. Agora, a espada ser erguida numa pausa de fúria intestinal é bom demais! Essa cagada é a nossa cara, ou seria bunda!

    08/09/2019 às 08:09 Responder
    • proximarota

      Grato e feliz pelo prestígio, Professor Roberto Magalhães!

      14/09/2019 às 15:47 Responder

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