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Machu Picchu

Machu Picchu

No templo sagrado dos incas, os mensageiros dão as boas vindas

 

 

Situadas a 2.560 metros de altitude, as ruínas de casas e templos de Machu Picchu (montanha velha ou velho pico, no idioma quechua) continuam sendo o maior destino turístico peruano, embora o país reserve muitas outras surpresas.

 

Mais de 2.000 turistas passam por dia pelas ruínas da magnífica cidade, construída há milhares de anos pelos incas, e que ainda hoje estão em perfeito estado de conservação. A viagem até o santuário exige dinheiro, tempo, planejamento e algum preparo físico, já que é um subir e descer escadas sem fim.

 

Até hoje não se sabe por que os incas abandonaram repentinamente a cidade. As explicações mais plausíveis apontam três hipóteses: uma epidemia, uma invasão das tribos da floresta amazônica com as quais viviam em conflito ou mesmo uma rebelião entre as autoridades de Cusco, que condenou toda a população de Machu Picchu à pena de morte.

 

Certo ou errado, o que importa é que seus enigmas continuam intrigando gente do mundo todo, que se pergunta como os espanhóis liderados por Francisco Pizarro nunca os conheceram. Segundo os estudiosos, como Machu Picchu era um centro religioso e astronômico, sem reunir riquezas, que eram a meta dos exploradores, o local conseguiu se manter intacto como um grande segredo jamais revelado nem mesmo para os próprios incas.

 

Um lugar mágico que não pode de forma alguma ser comparado apenas a um conjunto de ruínas. Tem alma, poder. Transmitindo os mais belos sentimentos a quem o visita.

 

 

De Cusco a Águas Calientes

 

Existe apenas um jeito de se chegar a Machu Picchu a partir de Cusco, no Peru: de trem. Mesmo os mochileiros que se aventuram por três ou quatro dias pelo caminho inca (45 quilômetros) até atingirem o povoado de Águas Calientes tomam o Peru Rail desembarcando antes, para seguir a pé. Existem várias categorias: primeira, segunda, terceira classe (cuidado com os pertences). Os preços variam muito.

 

Interior do trem (Foto: Eliane Barbosa)

Interior do trem (Foto: Eliane Barbosa)

 

 

 

 

A viagem é demorada se comparada com a aérea. Se de São Paulo a Lima leva-se em torno de cinco horas, em voo direto e de Lima a Cusco, uma hora, de trem o percurso é feito em quase quatro horas. Mas ninguém reclama porque é a chance de o turista descobrir os mistérios do Vale Sagrado, cruzando paisagens incríveis: do árido montanhoso ao úmido da Selva Amazônica. Rios com corredeira, pontes, sítios arqueológicos e plantações nas encostas são a prova de como os incas estavam muito além de seu tempo. Pena que somente durante três séculos se mantiveram na América Latina.

 

Para mais informações, acesse: www.perurail.com

 

 

Zigue-zague rumo ao Vale Sagrado

O “boleto de viaje” da Peru Rail é conjugado com o ticket para o ônibus que leva os turistas até a entrada do sítio arqueológico

 

De madrugada, em Cusco, antes da viagem, é um movimento só. Turistas das mais diversas nacionalidades acordam por volta das 4- 5h para o transfer até a estação de trem. Com mochilas nas costas, tênis e água, embarcam tendo como receptivos peruanos impecavelmente trajados.

 

Jovens escolhidos a dedo servem como “ferro- moços” convidando os passageiros a uma viagem mágica. O trem é pontual. Parte no horário estabelecido. Nem um minuto a mais nem a menos. Britânico.

 

 

Para frente e para trás

 

Como Cusco fica a mais de 3.400 metros de altitude e é preciso transpor a montanha sinuosa para atingir o vale – o trem não tem como fazer manobras como um ônibus –, terá que procurar outros meios. Por isso o procedimento surpreende: os vagões vão para frente e para trás. Os movimentos em ziguezague fazem o trem se deslocar, lentamente, até conseguir seguir em linha reta pelos trilhos.

 

O vai e volta leva mais que meia hora. Período para se avistar toda a cidade de Cusco e as casinhas da periferia sempre com dois tourinhos no telhado, símbolo de meta alcançada. No caso, conseguir um teto.

 

Casal de touros no telhado: tradição peruana

Casal de touros no telhado: tradição peruana (divulgação internet)

 

 

E aí o trem segue em frente, atravessando povoados encantados e plantações parcialmente cobertas pelo gelo da madrugada. É a zona rural de Cusco e das cercanias mostrando a sua cara.

 

 

Sem “soroche”

 

Não há necessidade de chá de coca nem de remédio para o “soroche”, mal de altitude, rumo a Machu Picchu. A cidade fica bem abaixo da altitude de Cusco – 3.400 a 3.750 metros acima do nível do mar. Como a aclimatação já foi feita, nada a temer. Mas prepare as pernas, porque elas serão mais que exigidas nas próximas horas.

 

O bilhete num vagão de categoria média dá direito a café da manhã: “huevos revueltos”, frutas, presunto… Os atendentes tiram o elegante casaco azul-marinho, colocam o avental e oferecem o “desayuno”.

 

Enquanto os guias turísticos vão contando histórias dos incas, da construção da ferrovia, da proibição de helicópteros continuarem descendo no vale, a viagem segue, com direito a duas paradas. Uma delas no vilarejo de Chilca, no caminho inca, para a entrada e a saída de novos passageiros, incluindo “peregrinos” que se encontram nas estações com carregadores.

 

 

Comprando nas paradas e o rio Urumamba

 

Momentos especiais para a compra de artesanato e fotos. Conforme o trem vai entrando no Vale Sagrado, a viagem vai se tornando mais atraente, dessas para se guardar para sempre na memória. O rio Urubamba, as quedas d’ água, as imensas rochas em meio ao leito, as pontes, as montanhas, a floresta.

 

Como parte do Peru está localizado também dentro da Selva Amazônica, em algumas épocas recomenda-se o uso de repelentes por conta da presença de insetos e jamais deve-se fazer a travessia do rio a pé, por ser habitat natural de serpentes venenosas que vivem às suas margens.

 

O uso de repelente – não economize – é obrigatório para quem for fazer parte do percurso a pé, pois a dor da picada é insuportável. A viagem segue o curso do rio Urubamba, penetrando cada vez mais no vale sagrado dos incas.

 

Para quem pode parar em uma ou outra estação, há muito para se ver entre Cusco e Machu Picchu, incluindo povoados com ruelas de pedra que misturam arquitetura pré-colombiana e espanhola, feiras de artesanato, comunidades de artesãos e camponeses dedicados ao cultivo.

 

Belezas pelo caminho entre Cusco e Machu Picchu (Foto: Eliane Barbosa)

Belezas pelo caminho entre Cusco e Machu Picchu (Foto: Eliane Barbosa)

 

 

Písac, por exemplo, recebe aos domingos visitantes que se hospedam em Cusco e vão à sua praça central para participar da maior feira de artesanato do Vale Sagrado. É uma festa de cores e tradições, que se inicia por volta das 5h30 e prossegue pela tarde, onde são oferecidos artigos como ponchos, colares e artesanato de cerâmica, assim como produtos típicos de cada região. As frutas de Quillabamba, o milho de Urubamba, entre outros.

 

A feira de Písac e suas cores (foto: divulgação internet)

A feira de Písac e suas cores (divulgação internet)

 

 

O Vale de Lares é outra joia do caminho para Machu Picchu. Ainda pouco explorado, o vilarejo preserva comunidades tradicionais, permitindo contato mais próximo com a cultura ancestral peruana. Muitas casas são de pedra e o povo vive basicamente da agricultura. As águas termais de Lares oferecem descanso para os grupos que optam por fazer o caminho a pé (há lodges na região para abrigar quem faz a trilha).

 

Os lagos azuis de Lares: ainda pouco explorado, o local permite contato com a tradição peruana (foto: divulgação internet)

Os lagos azuis de Lares: ainda pouco explorado, o local permite contato mais próximo com a tradição peruana (divulgação internet)

 

 

Assim como ocorre no Brasil, mais especificamente na Bahia, o sincretismo religioso é forte no Peru. No Vale Sagrado, aos domingos, são realizadas missas em quechua, o dialeto ancestral, numa prova da idiossincrasia entre o catolicismo imposto pelos ibéricos e os cultos indígenas.

 

 

As construções em pedra da cidade sagrada

 

Machu Picchu, o Pico Velho, leva esse nome devido à denominação do pico de onde se originaram as pedras que construíram a cidade sagrada, que é rodeada por quatro picos principais: Huayna Picchu (aquele pico mais alto que aparece nas fotos do local, observatório astronômico e onde se localiza o templo da lua), o Putukusi (uma montanha cujo espírito é feminino), o Wilcanota e, por fim, o Machu Picchu.

 

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Foto: Eliane Barbosa

 

 

Os mais corajosos podem alcançar o cume do Huayna Picchu e do próprio Machu Picchu, mas exige uma certa preparação e descanso. Ambas as trilhas são bastante cansativas, com milhares de degraus íngremes e estreitos. É preciso comprar os ingressos com meses de antecedência, pois o acesso é limitado a 400 pessoas por dia.

 

A trilha do Huayna Picchu dá acesso ao Templo da Lua, situado na parte de trás da montanha, uma das mais belas construções incas feitas no interior de uma caverna, o que indica que o local tinha grande importância para os incas. Na frente da caverna há um altar de pedra, possivelmente utilizado para cultos ou rituais, embora não se saiba exatamente qual a utilidade do templo.

 

Templo da Lua

Templo da Lua (divulgação internet)

 

 

Na cidadela há várias edificações de destaque, com suas portas e janelas trapezoidais. O Templo do Sol, fundado sobre uma rocha maciça, chama a atenção por ser a única construção circular do complexo. A abertura de sua janela recebe a luz do sol que é direcionada até a pedra central do templo no solstício de inverno.

 

Templo do Sol: única construção circular de Machu Picchu (divulgação internet)

Templo do Sol: única construção circular de Machu Picchu (divulgação internet)

 

 

Abaixo do Templo do Sol fica uma espécie de gruta que os estudiosos acreditam que era utilizada como mausoléu para os líderes incas.

 

Mausoléu dos nobres, abaixo do Templo do Sol (divulgação internet)

Mausoléu dos nobres, abaixo do Templo do Sol (divulgação internet)

 

 

No ponto mais alto da cidade está o Intihuatana (significa “o lugar onde se amarra o sol”), relógio solar delicadamente esculpido em uma rocha. A peça se alinha aos pontos cardeais e era utilizada para registrar a passagem do tempo, além de auxiliar na agricultura.

 

O Intihuatana: turistas costumam estender as mãos sobre a pedra para captar energia (divulgação internet)

O Intihuatana: turistas costumam estender as mãos sobre a pedra para captar energia (divulgação internet)

 

 

O parque fica numa área com mais de 32 mil hectares, protegida histórica e ecologicamente. Rica em biodiversidade, a região abriga mais de 370 espécies de aves, 77 de mamíferos e 700 de borboleta.

 

Assim que se desembarca na Estação de Trem de Águas Calientes, sente-se a magia do lugar. Como todo ponto turístico, o povoado é repleto de lojinhas de artesanato e restaurantes típicos. Dezenas de microônibus encaminham os visitantes até a entrada do sítio arqueológico. Pelo caminho, nas encostas, a presença dos “mensageiros” encanta.

 

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Praça central de Águas Calientes

Praça central de Águas Calientes

 

 

São crianças com trajes típicos andinos, muito coloridos, que inesperadamente surgem pelo trecho cheio de curvas, surpreendendo e encantando os visitantes. Relembram como no passado funcionava a comunicação entre os povos andinos de cima e de baixo da montanha. Na volta, os mensageiros entram nos ônibus e desejam a todos passageiros bom regresso e, claro, solicitam alguma “propina” (gorjeta).

 

 

O solstício e as festas de junho

 

A melhor época para se visitar Machu Picchu e percorrer a trilha inca vai de junho a agosto, quando também são realizadas as festas mais populares da região: Corpus Christi e Inti Raymi, o Festival do Sol (leia mais no post sobre Cusco: proximarota.com.br/cusco).

 

Raramente nesses meses chove, mas a desvantagem é que os preços dobram devido à alta concentração de estrangeiros de todas as partes, que lotam o santuário entre 10h e 15h.

 

Entre outubro e abril, chove sem parar e os visitantes devem levar capas de chuvas, repelente e usar sapatos apropriados que não derrapam (tipo botinhas). Se chover muito as autoridades peruanas emitem avisos para que ninguém se arrisque até Águas Calientes ou melhor ainda, nem saia de Cusco.

 

O Serviço de Informação e Assistência ao Turista é um exemplo de organização para o mundo, com um trabalho incessante voltado ao atendimento aos visitantes nacionais e estrangeiros no Peru. A alta qualificação dos guias turísticos peruanos também impressiona. Todos formados em escolas de graduação estreladas (falam vários idiomas).

 

Por isso, jovens, crianças, pessoas da terceira idade e até portadores de necessidades especiais (claro que monitorados por amigos e parentes) visitam a cidade sagrada o ano todo. Ao contrário do mal que acomete muitos turistas em Cusco, isso não ocorre em Machu Picchu. Mesmo assim é preciso fôlego para o subir e descer escadas.

 

 

A força de Deus

 

Vá com calma, beba muito líquido, se lambuze de protetor solar e tenha fé: você vai conhecer todos os templos e se maravilhar com esse lugar místico, exótico e exemplar. Um lugar para  ficar quieto, olhar o céu e toda aquela construção  e sentir toda a força de Deus sobre os homens. Até o mais cético dos mortais se renderá àquela visão fantástica. Complementada, quase sempre, pelas luzes multicoloridas do arco-íris. Um lugar para se chorar de tanta emoção!

 

(Foto: Eliane Barbosa)

(Foto: Eliane Barbosa)

 

 

Saiba mais

 

O Peru está situado na região centro-oeste da América do Sul, sendo o terceiro país em extensão, com 1’285.215 quilômetros quadrados, depois do Brasil e Argentina. É o vigésimo maior país do planeta.

 

Machu Picchu, seu maior destino turístico, é uma das dez maravilhas do universo. A cidade foi totalmente construída em pedra, aproveitando todos os espaços, em harmonia com a funcionalidade.

 

Destacam-se dois setores: a zona urbana, que compreende templos, palácios, praças, depósitos, ateliês, escadarias e fontes, entre outros, e a zona agrícola, conformada por vários tipos de escadarias ou terraços para o cultivo.

 

(Foto: Eliane Barbosa)

(Foto: Eliane Barbosa)

 

 

Há muito tempo, habitantes do lugar sabiam da existência das ruínas. Em 1911, o guia Melchor Arteaga conduziu o professor Hiram Bingham a Machu Picchu. Birgham voltou em 1914 com o apoio da Universidade de Yale e da National Geografic Society.

 

Desde então se espalhou a notícia sobre a existência de Machu Picchu como a “Cidade Perdida dos Incas”, mas no início foi confundida com a misteriosa Vilcabamba, a Velha, onde se refugiou Manco Inca.

 

Acredita-se que, fundamentalmente, a cidade teve uma finalidade religiosa. Bingham encontrou um cemitério exclusivo de mulheres, o que fez com que pensasse que era um imenso mosteiro de acllas (mulheres jovens) e um lugar para o descanso e recolhimento do soberano cusquenho. É possível que a construção date dos tempos de Túpac Inca Yupanqui, época final do império inca.

 

O Santuário Histórico de Machu Picchu foi tombado como Patrimônio Cultural e Natural da Humanidade pela Unesco, em 1983.

 

 

 

*Texto: Eliane Barbosa

 

 

Eliane Barbosa
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