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ESQUEL

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A NATUREZA NA CORDILHEIRA PATAGÔNICA

 

 

Emociona poder viajar por áreas ainda não contaminadas pelos males da atividade urbana e desfrutar de ecossistemas únicos, como na Patagônia argentina. Na Província de Chubut, a 1.400 quilômetros de Buenos Aires, mas ao alcance dos brasileiros em poucas horas de voo, o turista pode sentir de perto a exuberância da fauna e da flora numa das várias áreas protegidas, do país vizinho. Na área marítima a Península Valdés é um show com baleias, pinguins, orcas, leões-marinhos, golfinhos e milhares de aves. Na parte terrestre guanos, pumas, ñhandus, coelhos e raposas. Do outro lado da província, nos contrafortes da Cordilheira dos Andes está a cidade de Esquel, com o Centro de Alta Montanha “La Hoya”, a só 15 quilômetros da área urbana. A neve sempre exerceu uma enorme sedução sobre a maioria das pessoas, principalmente para os brasileiros que sentem uma sensação única ao entrar em contato com o gelo. Sentir os flocos de neve caindo do céu e pintando de branco toda a paisagem ao seu redor é um espetáculo imperdível, até para os moradores da região. Quanto mais para quem mora num país tropical, mesmo abençoado por Deus.

 

A estação de neve chegou ao seu final, mas, o verão de temperaturas agradáveis também respalda uma inesquecível viagem à província de Chubut, desde a costa marítima até os bosques andinos, passando pelas estepes, lagos e lagoas.

 

Localização

Localização

 

 

ÁRVORES MILENARES NO PARQUE LOS ALERCES

 

Há poucos quilômetros de Esquel e Trevelin está o Parque Nacional Los Alerces, acessível ao público para caminhadas ou excursões de barco. É um dos mais belos dos 44 parques argentinos e, se os hermanos não exageram, “lo más bello del mundo”. O que ninguém duvida é que, realmente, é lindo. As paisagens são de cartões postais com a floresta intacta, lagos de águas cristalinas refletindo montanhas com neves eternas no cume. O Parque tem mais de 263 mil hectares. Conta com uma variada oferta de alojamentos, campings e restaurantes. A caminhada pelas trilhas dá ao visitante a oportunidade de contato direto com os pássaros e animais de pequeno porte. A grande surpresa seria dar de cara com um puma, que chamamos no Brasil de suçuarana, ou onça parda que tem ali o seu habitat. É um bicho de uns cem quilos, meio metro de altura por 2,5 metros de comprimento até a ponta da cauda.  Avisos ao longo das trilhas dão instruções ao turista sobre como proceder. Alguma coisa como: “nunca virar as costas para o animal”; “não correr” (que o bicho pega); “gritar fortemente, mostrar agressividade com algum galho de árvore”. Como o puma respeita o tamanho do “inimigo” antes de optar por um possível ataque, abrir a capa ou o casaco para fazer supor que o seu tamanho é muito maior, também serve, na emergência. Se nada disso funcionar, as instruções não dizem, mas o melhor a fazer é rezar.

 

Na ponta do Lago Menendez, em Puerto Chucao, saem excursões de barcos, fechados, com janelas amplas de vidro, com capacidade para 85 pessoas. O horário mais concorrido é o das 11h30m. O passeio dura 1h20m.  Os adultos pagam 340 pesos e as crianças, 280. É um passeio quase obrigatório. O barco passa por um Ventisquero, como eles denominam as montanhas batidas pelo vento gelado e que formam ondulações nas neves dos cumes. De uma das fraturas da montanha desce um glaciar, uma manta de gelo até as águas do lago, mesmo com o calor de 25 graus no verão. A neve brilha com os raios de sol. Dizem que o gelo tem milhares e anos, desde a sua formação. Tomar uísque “on the rocks” com as pedras desse gelo de 20 mil anos seria um privilégio para poucos.

 

Depois que o barco aporta no cais, na outra ponta do Lago Menendez começa a caminhada pelos “senderos de interpretación” como eles chamam o caminho em meio aos gigantescos alerces, árvores de cerne tão duro que a madeira nunca apodrece. É a segunda árvore mais longeva do mundo, depois da sequoia dos bosques californianos. Uma das árvores do parque, o “alerce abuelo”, tem 2.620 anos comprovados pelos testes de carbono 14. Mede 57 metros de altura e 2,8 metros de diâmetro. Cresce somente um milímetro por ano! Os índios tehuelches, nativos do local, chamavam as coníferas de “lahuan”, que significa avô.  O turista se sente insignificante diante da longevidade desse ser vivo, que já estava ali de velho quando começou a colonização da América. Muitos dos alerces têm o tronco lascado. Antes da criação do parque não havia proibição para a exploração da madeira. Os lavradores retiravam pequenas tábuas do tronco dos alerces para fazer telhados. A madeira, além de dura é impermeável. Perito Moreno foi quem incentivou o governo a delimitar as áreas de preservação, antes que todo esse tesouro viesse a baixo. Em outro parque dizem existir alerce com 3.250 anos. Essas árvores são da mesma família dos ciprestes e das sequoias. Um exemplar desta última, trazida em muda dos Estados Unidos, deu-se muito bem no jardim da sede do Parque Los Alerces. São comuns árvores dessa espécie com 300 e 800 anos.

 

Ao longo da trilha existem vários mirantes que permitem visão panorâmica das corredeiras, saltos e cachoeiras do Rio Nant y Fall.  A abundância de chuvas e o ambiente de penumbra fazem com que a água acumulada nas pequenas cavidades das rochas favoreçam ao crescimento de musgos. Os musgos são plantas muito rudimentares. Não possuem raízes e não têm flores, nem frutos, nem sementes. Formam um denso tapete verde do qual sobressaem, na primavera, seus órgãos reprodutores em forma de urna. É mais um atrativo da caminhada esse imenso tapete que vem desde o tempo dos índios araucanos.

 

 

LA TROCHITA, O VELHO EXPRESSO PATAGÔNICO

 

No início do século passado, a partir dos anos 1920, a ferrovia exerceu importante papel para o desenvolvimento regional na contra-escarpa da Cordilheira dos Andes, a partir da cidade de Esquel. A comunicação dos antigos povoadores e o transporte do gado, da lã e dos cereais produzidos nos férteis vales somente foi possível com La Trochita, o trem assim chamado por causa da diminuta “troncha”, ou seja, a bitola de 75 centímetros. É a menor largura entre trilhos do mundo, em se tratando de ferrovia ainda em atividade. No Brasil as bitolas vão de 1 metro a 1m60, a chamada “bitola larga”, padrão irlandês igual ao da antiga Companhia Paulista, que passa por Bauru. A bitola da antiga Noroeste é métrica.  O trajeto completo do Expresso Patagônico, no passado, era de 402 quilômetros. Hoje são meros 22 quilômetros, para atender a curiosidade dos turistas desde que a ferrovia foi declarada Monumento Histórico, em 1999.

 

As velhas locomotivas a vapor Baldwin&Henschel, fabricadas nos Estados Unidos puxavam vagões de passageiros e de cargas. Para enfrentar o frio no inverno e a neve, os vagões eram dotados de “salamandras”, aquecedores a carvão para permitir que os passageiros esquentassem a água do mate e também para aquecer o ambiente.

 

Os turistas fazem uma verdadeira viagem no tempo, na temporada de alto verão, inclusive com saídas noturnas, desde Esquel até Nahuel Pan. A paisagem é deslumbrante graças a combinação de vales verdejantes, montanhas nevadas e mesetas patagônicas. Em Nahuel Pan os passageiros descem para visitar o Museu de Culturas Originárias, dos índios Tehuelche-Mapuche, e a Casa das Artesãs, onde é possível adquirir peças de tecidos coloridos confeccionadas pela população indígena e rural.  No desvio de El Maitén é permitido descer na ponte do Rio Chubut, para fotografias e visita ao Museu Ferroviário com os escritórios da antiga ferrovia.

 

La Trochita tem um excepcional valor histórico, tecnológico e cultural que a fazem única na espécie. O passeio dura aproximadamente 2h30.Para mais informações, acesse:

 

http://latrochita.org.ar/

 

 

BOSQUE PETRIFICADO TEM 60 MILHÕES DE ANOS

 

Quem viaja de carro de Trelew para Esquel, na altura do quilômetro 112 da Ruta Nacional Nº 25 deve aproveitar para conhecer o Bosque Petrificado “Florentino Ameghino”. Pessoal qualificado (somente são aceitas visitas agendadas de grupos, a 80 pesos por pessoa) introduzem o visitante à História Geológica da região que teve início há 60 milhões de anos, quando começaram a surgir os mamíferos na face da terra. Trata-se de um cânion escavado pelo leito do Rio Chubut e que já foi mar na era mesozoica.  Na área do bosque petrificado são observados vestígios geológicos do antigo mar e rios hoje ausentes, restos de organismos marinhos e de plantas que viveram naquela época, agora fossilizadas. A maior atenção do visitante é voltada para os troncos de árvores petrificados que se encontram encravados no terreno.Os guias explicam o processo de fossilização. Os troncos de árvores arrastadas pelas enxurradas foram dar em rios e depois no mar onde passaram milhares de anos soterrados. A compactação, pelo peso dos sedimentos e a cimentação, pelo processo químico da água salgada e outras agentes transformaram a madeira em rocha sedimentar. Infelizmente muitos fósseis se perderam pela exploração da madeira petrificada na construção civil, para enfeitar as fachadas de residências. Hoje o sítio é preservado. De lá nada se leva e nada se deixa, senão os rastros do seu calçado nas sendas demarcadas. O turista não pode sair do caminho traçado para não prejudicar o ambiente. Leva também as imagens captadas pelas câmeras, de objetivos inusitados. Imagine que aquilo com características nítidas de um tronco de árvore, na verdade teve vida vegetal a 60 milhões de anos.

 

A passarela dos visitantes possui 16 locais de interesse, tanto com gigantescas árvores fossilizadas como invertebrados marinhos em praias fósseis. Ainda se vê o perfil ondulado na areia endurecida, do que foi uma praia a milhares de anos. O Bosque Petrificado Ameghino, de Chubut é da era Terciária, há 66 milhões de anos. São coníferas e palmeiras. Há também o Bosque Petrificado do Río Genoa, também na Província de Chubut, que é um pouco “mais velhinho”. Vem do Paleozoico a 254 milhões de anos.

 

https://bosquepetrificado.wordpress.com/

 

Na sequência do trajeto rumo a Esquel, pela Ruta Nacional Nº 25 o viajante passa por Los Altares. Outro espetáculo à parte. As rochas de paredes avermelhadas, com as do Gran Cannion, esculpidas pelos antigos glaciares, torrentes de água e vento, compõem paisagens de beleza estética, margeando o leito do Rio Chubut.

 

 

TULIPAS EXPORTADAS PARA A HOLANDA

 

A cidade de Esquel, na Província de Chubut recebe cerca de 20 mil turistas no inverno, atraídos pela estação de esqui La Hoya (pelo formato côncavo de uma folha), uma das mais austrais do país. Está a 180 quilômetros abaixo de Bariloche. Segundo a diretora do Ministério do Turismo de Áreas Patagônicas Cláudia Tabares a intenção é aumentar em pelo menos 20% o número de visitantes anuais, que podem desfrutar das belezas do lugar também na primavera e no verão. Além dos Parques Nacionais que dão um quadro magnífico para trekking pelas trilhas autorizadas, guias de pesca recebem turistas de todo o mundo que vêm para praticar a pesca com mosca ou “fly fishing”. As espécies mais difundidas são a truta-arco-iris, salmão do Atlântico, truta marrom e salmão fontinalis.

 

Perto de Trevelin, cidade fundada por pioneiros galeses e que se situa entre a floresta andina e a estepe patagônica, o turista se depara no quilômetro 50 da Ruta 59, com uma extensa plantação de tulipas. Impossível não parar para ver aquele mar de cores. As tulipas se deram tão bem no solo e no clima da região que os cultivadores holandeses passaram a importar os bulbos patagônicos colhidos nesta época do ano. Descendentes de colonos italianos começaram com vendendo dois contêineres em 1997 e agora já estão em vinte contêineres anuais, com bulbos classificados por tamanho e variedades, exportados para o país das tulipas. As flores brancas, amarelas, rosas de várias tonalidades, fúcsias, azuis e negras dão um colorido raro de se ver no mundo.

 

Vizinhos estão as Vinhas Nant y Fall, as mais austrais do mundo. A variedade Pinot Noir é cultivada ali por ser a mais resistente ao gelo. O proprietário Sérgio Bianchi costuma hospedar motociclistas brasileiros que se aventuram pelas estradas da Patagônia, no que ele chama de eco-camping. Também motor-homes de turistas que viajam com a família encontram um parador seguro na beira do lago lotado de peixes.

 

Esquel, a cidade-pólo da região, lembra Campos do Jordão com sua arquitetura alpina. É uma cidade tranquila, mas sofisticada, com bons restaurantes e uma noite agitada na estação de inverno. As cervejarias artesanais são comuns na Patagônia. A Heiskel merece uma visita. Prove da roja, da rúbia e da negra. Todas são boas. A gastronomia galesa nas casas de chá e outra opção tentadora. Como não poderia deixar de ser em todas as áreas de montanha, o chocolate artesanal também é forte em Esquel. A loja-fábrica Braese é dirigida pela mesma família há 40 anos. É possível ao turista assistir a fabricação manual de chocolates em rama. Os produtos regionais, defumados, patês, escabeches, licores de framboesas, cassis e ginja, são encontrados nos balcões da loja e adquiridos para levar como presentes.

 

 

*TEXTO E FOTOS: ZARCILLO BARBOSA

 

 

 

 

Eliane Barbosa
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