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DO PUM DO PALHAÇO AO COCÔ PETRIFICADO

DO PUM DO PALHAÇO AO COCÔ PETRIFICADO

ZARCILLO BARBOSA
💩




A ex-secretária de governo Regina Duarte – “aquela que foi sem nunca ter sido” – , comparou a cultura “ao pum produzido com talco espirrado do traseiro do palhaço que faz a risadaria da criançada”.


Mais que outro “chilique” da ex-viúva Porcina, a cultura, realmente, também é feita de palhaçadas, de musicais, de humor.  O pum faz parte de uma função fisiológica absolutamente normal. Mesmo assim, muitos riem do autor indiscreto.


Flatulência é a emissão de gases intestinais, algo que poderia passar despercebido. O problema é o cheiro e o barulho. Se associado ao ronco noturno, então, não há casamento que resista.


Os compostos sulfurosos produzem aquele característico odor que ofende narinas há milênios. Na última linha de O Inferno, parte da Divina Comédia, Dante escreve: Ed elli avea del cul fato trombeta (E ele usou o traseiro como trombeta).


Na comédia de Aristófanes (séc. 5º a.C.), As Nuvens, há um diálogo imaginado com Sócrates para explicar as razões do barulho dos trovões. O sábio havia inventado um método de ensinar fazendo perguntas (maiêutica), para induzir os discípulos à descoberta das suas próprias verdades. E saiu-se com esta: “Se o ventre humano, que é relativamente pequeno, faz tanto barulho, como não o farão as nuvens, que são muito maiores?”


O genial escritor irlandês James Joyce, autor de Ulisses, escrevia à amante Nora Barnacle com devassos louvores à sua “bunda repleta de peidos”. De fato, Joyce parecia ter acomodações especiais na mente e no coração para o aroma dos gases da mulher e pela visão das suas roupas íntimas sujas. “As duas partes do corpo que fazem sujeira são as mais adoráveis para mim”, ele escreveu em uma das suas inúmeras cartas eróticas que enviava à amada.


O pum cultural vai muito além da graça infantil do palhaço. Em A Terra, de Émile Zola, há um personagem que conseguia ganhar apostas com sua habilidade de reter gases para soltá-los quando quisesse. No célebre Moulin Rouge, no tempo da belle époque, havia o famoso bailarino Joseph Pujol, autodenominado Le Pétomane (em tradução livre, O Peidorreiro). Tinha um extraordinário controle dos músculos abdominais e do esfíncter anal, o que lhe permitia façanhas assombrosas. Exibiu-se para audiências que incluíam o príncipe de Gales e Sigmund Freud. O homem dançava e soltava puns ao mesmo tempo. No grand finale conseguia tocar flauta por meio de um tubo de borracha emitindo também os sons da La Marselhesa.


Fizeram até um filme premiado, contando a vida de Pujol. Muitos livros, inclusive o best seller recente, Quem comeu o meu queijo?, de Jim Dawson,  abordam  abrangentes histórias sobre a flatulência.


Graças aos chiliques encenados, Regina Duarte ganhou do presidente Bolsonaro a Cinemateca Brasileira, que fica em São Paulo, mais perto da sua casa.  Ela abre mão dos ditirambos dionisíacos dos faunos e sátiros de Brasília, onde os palavrões fariam inveja a Rubem Fonseca. O escritor recém-falecido jamais chegou à perfeição de um “cocô petrificado” criado pelo chefe da Nação.


Zarcillo Barbosa é jornalista

proximarota
1 Comentário
  • Neusa Richards

    E engraçado apesar de trágico

    24/05/2020 às 23:17 Responder

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