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DO CARNAVAL FICA O PASSADO

DO CARNAVAL FICA O PASSADO

ZARCILLO BARBOSA
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Momo sem reinado e sem folia. O comércio do Rio e de São Paulo reclama prejuízos, somados, de mais de R$ 5,5 bilhões, por não ter para quem vender tiaras, penas e brilhos. Máquinas de costura paradas, por falta de fantasias. Hotéis vazios e voos cancelados. Bem agora e que inventaram o glitter biodegradável e vegano, uma espécie de purpurina multicolorida antes metálica e poluente. Dizem que a versão primitiva grudava no corpo e durava até o próximo Carnaval. Ou, pelo menos, até a Parada Gay.


Garantem os historiadores que não é a primeira vez que o Carnaval é suspenso. Em 1894 houve a Revolta da Armada, uma rebelião de marinheiros para obrigar Deodoro da Fonseca a reabrir o Congresso e acabar com o estado de sítio. Navios de guerra ameaçavam bombardear o Rio de Janeiro. Em crônica de jornal, Machado de Assis – que não era propriamente um folião – lamentava a ausência do tríduo. Passava a sensação de que o mundo iria acabar, sem o Rei Momo.


Em 1912 o governo da República também decretou o adiamento do Carnaval para o dia 6 de abril. O país estava de luto com a morte do Barão do Rio Branco, considerado herói nacional. Os cariocas tiveram dois carnavais naquele ano. Nem respeitaram o luto em fevereiro, e voltaram à esbórnia em abril.


Curioso é que houve Carnaval em 1919, em plena pandemia da gripe espanhola. Blocos e sociedades saíram às ruas, sem se preocupar com o vírus da época. O presidente Delfim Moreira assumira no lugar de Rodrigues Alves, morto pela gripe espanhola. Ele queria mais que o povo ignorasse a peste. Os infectados morriam aos milhares, sem assistência.


Aqui em Bauru, a prefeita Suéllen livrou-se de um abacaxi. Aquela eterna discussão sobre subsidiar as escolas de samba com dinheiro público. Suéllen é evangélica.  A resistência a esse tipo de ajuda sempre foi forte entre os protestantes.


Bauru, depois do slogan “o melhor Carnaval do interior”, passou a ser conhecida como Capital do Retiro Espiritual. Em 2011, 40 mil cantavam em louvor a Deus, alojados até nos galpões de confinamento do gado na Expo do Recinto Mello Moraes.


Houve época em que paternalismo político tentou se apropriar dos nossos desfiles de escolas de samba. Construiu-se um Sambódromo, pioneiro no interior. Os carnavalescos se viciaram no subsídio público e nem sempre trataram de dar auto sustentabilidade às agremiações. Resultado: o Carnaval bauruense caiu do galho, deu dois suspiros, e depois morreu. Quem sabe ressuscite.


O tempo conserta tudo. Chegará “a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”, como no samba de Assis Valente (1940). Os brasileiros voltarão a esquentar seus pandeiros, iluminar os terreiros “que nós queremos sambar”. O samba desceu o morro, incentivado pela elite. Os brancos se encantaram com os folguedos antes rejeitados, passando a consumi-los, altera-los e, finalmente, apoderaram-se do espetáculo. Além dos pandeiros incrementaram cores, peitos e bundas.


Ainda há os que lamentam a proibição do lança-perfume, éter comprimido em bisnagas de alumínio ou vidro. Concordo que o Carnaval perdeu muito da sua ingenuidade com a proibição de Jânio Quadros (1961). Aspirar o líquido volátil e perfumado provocava um zumbido nos ouvidos, uma sensação agradável de torpor.


Para os mais tímidos o lança-perfume servia para libertá-los das amarras da introspecção e enchê-los de coragem para finalmente abordar a garota paquerada durante o ano todo. Era o ápice do charme injetar aquele líquido gelado nas costas e nas pernas das garotas que se arrepiavam, mas sentiam-se homenageadas. Vedado o uso do lança, entrou a maconha, a cocaína, o excstazy e outras drogas.

Zarcillo Barbosa é jornalista
proximarota
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