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Cada idade com a sua juventude

Cada idade com a sua juventude

ZARCILLO BARBOSA
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O poeta pernambucano Bastos Tigre, em um poema aconselhava as pessoas a entrarem pela velhice com cuidado – “pé ante pé, sem provocar rumores / que despertem lembranças do passado, / sonhos de glória, ilusões e amores”. Fiquei sabendo por uma pesquisa da Datafolha, que brasileiro se considera jovem só até os 37 anos e, velho, após os 64. Sendo assim, eu poderia dizer que sou um velho de apenas 15 anos sem ter do que me queixar. Concordo com o poeta quando ele conclui: “Mantém-te jovem, pouco importa a idade / tem cada idade a sua juventude…”


É bem isso. Não chego a achar que a velhice seja o melhor dos tempos. Mas também não acho que seja a pior fase da vida. Lembro-me da minha adolescência, época em que não se tinha direito a nada, somente hora de chegar, de estudar, e de procurar emprego para ver se descolava algum dinheirinho. É uma das fases mais atormentadas da existência.


Nem sempre é a idade que nos torna felizes ou infelizes, e sim a cabeça, assim como o que faz mal à saúde é a doença, não a velhice. Perdi pelo caminho muitos amigos, alguns ainda jovens e outros velhos, vencidos pelo câncer, o infarto, o Alzheimer e até a dengue. Como tudo na vida, é preciso de um pouco-muito de sorte. Tenho uma tia centenária, ativa e feliz, que responde o seguinte quando se tenta saber o segredo da saudável longevidade: “é que fumo, jogo, bebo e durmo tarde”. É verdade que não recomenda essa receita para ninguém. Também não esconde que faz tudo com muita moderação. Procura ficar longe de qualquer encrenca que possa estressá-la; pede para ninguém a chatear com problemas de família. A não ser que seja algo muito grave e ela possa, de alguma forma, ajudar.


Enquanto isso, “carpem diem”, como receitava o poeta latino Horácio. Aproveite o dia. Temos que usufruir intensamente os momentos. Para o amanhã, ninguém garante nada. Bons médicos, visitados periodicamente, ajudam-nos a manter taxas de colesterol, triglicerídeos e glicose, dentro dos limites. Hoje, há uma série de medicamentos que ajudam a corrigir os excessos, quimicamente. Desde que o paciente ajude com dietas saudáveis e exercícios físicos.


Os antigos gregos usavam os “pharmakos”, substâncias que tinham o poder de trasladar impurezas. Hoje, os fármacos modernos têm funções profiláticas, curativas, paliativas e até servem para facilitar diagnósticos. Antigamente morria-se muito cedo. Os medicamentos mais eficientes só surgiram no século passado. A penicilina, descoberta por Alexander Fleming em 1928, apenas depois da Segunda Guerra Mundial começou a ser fabricada em escala industrial e a preços acessíveis. A marchinha de Carnaval dizia que “penicilina cura até defunto”. Realmente um antibiótico extraordinário para combater infecções bacterianas.


Outro dia, a tevê mostrava uma foto de Machado de Assis, quando tinha dez anos menos que o Roberto Carlos. O escritor parece muito mais velho. Felizmente, não se fazem mais jovens com cara de velhos como antigamente.


Do alto da minha faixa etária ouso afirmar que, graças às duas principais virtudes anciãs – paciência e tolerância – pode-se constatar que, assim como ocorre com o pôr do sol, existe também o nosso entardecer. O crepúsculo tem belezas a apreciar… se a vista não estiver cansada.
 



*Zarcillo Barbosa é jornalista.

proximarota
2 Comentários
  • Zuleika Lemos Gonsalves

    Acompanhando todas as publicações e aplaudindo, como sempre.

    15/07/2019 às 14:09 Responder
    • proximarota

      Muito obrigado pelo prestígio, Zuleika!

      15/07/2019 às 17:33 Responder

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