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BRASILEIRO AMA SOFRER

BRASILEIRO AMA SOFRER

ZARCILLO BARBOSA
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No cancioneiro popular brasileiro a sofrência é uma constante. Até prefiro. Melhor do que o barquinho que vai, uma tardinha que cai. Essas coisas cheias de mimimi são chatas demais. Mil vezes Lupicínio Rodrigues aos santos clamando vingança. Ou Dalva de Oliveira declarando copiosa, sob a luz difusa do abajur lilás, que o ciúme se debruçou sobre o seu coração.


Na Era do Rádio (1940), Dalva e seu ex-marido Herivelto Martins viveram um duelo conjugal que durou anos. Atiraste uma pedra com as mãos que essa boca Tantas vezes beijou Quebraste um telhado que nas noites de frio te servia de abrigo.


Foi até “Bandeira banca, amor, não posso mais…


Podem me chamar de brega. Nestes dias (meses, já) de isolamento social, tenho dedicado mais tempo à música. Passei em revista todos os hits nacionais que consegui me lembrar, desde o tempo de criança. A sofrência, graças a Deus, não é de hoje. Estava no primeiro verso do primeiro samba-canção, o doloroso “Ai, Ioiô, eu nasci pra sofrer”.


Amar é um inferno que pode acabar em cena de sangue num bar da Avenida São João. Tinha razão Caetano Veloso, quando puxou da viola e compôs: “A tristeza é senhora/desde que o samba é samba é assim”.


O grande cronista Antônio Maria lamentava “Ninguém me ama/ninguém me quer”, quando “Meu mundo caiu”, com a Maysa. Amores, na juventude, fazem a gente sofrer. Dói na alma. Lembra? É a época do coração desprevenido As traições revoltam a gente como entoava o baiano Waldick Soriano com sua chorosa “Eu não sou cachorro não/ Pra viver tão humilhado”. Muitas vezes errei sim, confesso, manchei o meu nome.


As mulheres são as que mais sofrem na nossa música popular. Carmen Costa já tinha cantado nos anos 1950: “Ele é casado/Eu sou a outra que o mundo difama”. Essa situação de “a outra”, com a volta, hoje, da tradicional família margarina ocasiona padecimentos pandêmicos. O amante não pode sair de casa. Impossível dizer que estava no bar com os amigos. Ninguém olha pelas amantes. Sequer podem reivindicar aqueles seiscentinhas da Caixa Econômica.


Muitas delas praticam o amor verdadeiro, mesmo com certos limites. Chega de temer, chorar, sofrer, sorrir, se dar/E se perder/ E se achar…, versejava Gonzaguinha tomando as dores das fêmeas, interpretadas por Betânia.


“Ah, como tudo é tão triste”.  Vinicius de Morais conseguiu encontrar tristeza no balançado e na beleza que existe na Garota de Ipanema. Tom concordou até na versão em inglês: “Oh, but I watch her so sadly”. É muita sofrência.


Zarcillo Barbosa é jornalista

proximarota
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