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A REVOLTA CONTRA AS ESTÁTUAS

A REVOLTA CONTRA AS ESTÁTUAS

ZARCILLO BARBOSA
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Os bandeirantes, passaram de heróis a vilões da história brasileira. Por causa dessa onda do “politicamente correto”, tentam apagar aquela visão romântica do “caçador de esmeraldas”, dos responsáveis pela conquista e consolidação do território nacional.


Daqui a pouco vão ter que rebatizar a Raposo Tavares, a Anhanguera, a Fernão Dias e a própria Bandeirantes, rodovias que cortam o interior paulista.


A estátua do bandeirante Borba Gato é agora vigiada 24 horas por dia.


Na verdade, o principal objetivo dos bandeirantes foi mesmo o de adentrar o interior para aprisionar índios. E depois, vendê-los como escravos. Na língua guarani paraguaia, conta Laurentino Gomes em “Escravidão”, banderante é sinônimo de bandido ou bandoleiro.


Protestos eclodiram em vários pontos do mundo, na esteira da morte do negro George Floyd, sob o joelho asfixiante de um policial branco de Minneapolis. A revolta contra as estátuas de personagens que, em algum momento histórico estiveram ligados com atos racistas, não tem poupado sequer personalidades que desempenharam papeis de suma importância, como Winston Churchill e Mahatma Gandhi. Entra na lista o inglês Baden Powell, fundador do escotismo em 1907. Além de racista, é acusado como fascista e nazista.


Ninguém sabe aonde essa onda vai parar. Até a HBO retirou de cartaz o filme “… E o vento levou”, por cenas tidas como racistas em tempos de Guerra de Secessão (1861-1865). É conhecida a biografia de Thomas Jefferson, um dos pais da pátria americana, que teve filhos bastardos com escravas negras. O general Lee, comandante sulista, caiu em desgraça há tempos. As bandeiras confederadas foram banidas de eventos do automobilismo americano.


A lista de escravocratas é longa. Durante quatrocentos anos, padres, bispos, cardeais e Ordens religiosas no Brasil e na África, não apenas apoiaram como participaram do tráfico de escravos e lucraram com ele. Inclusive os franciscanos, que faziam votos de pobreza absoluta. Os beneditinos tinham mais de mil cativos trabalhando em suas fazendas no Rio e em São Paulo. As Carmelitas Descalças tinham escravos (L. Gomes).


O monumento ao grande orador sacro, padre Antônio Vieira, acaba de ser pichado em Lisboa. Ele atribuía o comércio de escravos a um grande milagre de Nossa Senhora do Rosário, porque tirados da barbárie e do paganismo na África. No Brasil, os negros tinham a graça de serem salvos pelo catolicismo.


Salvar a alma dos cativos e convertê-los ao cristianismo foi a justificativa teológica e filosófica de bulas de vários papas, até que o papa Leão XIII acabou com a prática em 1888, na véspera da assinatura da Lei Áurea, no Brasil. Louvores a Santo Inácio de Loyola, que sempre foi contra a posse de cativos pelos missionários da Companhia de Jesus.


Durante muitos anos, os clubes de futebol não aceitavam jogadores e nem torcedores afrodescendentes. O primeiro reconhece-los como “gente” foi o Internacional de Porto Alegre. Com orgulho hoje os torcedores são chamados de “colorados”.


Os historiógrafos chamam de “anacronismo” essa tendência de tentar reescrever a história de acordo com comportamentos e parâmetros contemporâneos. O grande viés é que não se consideram as nuances e circunstâncias do passado. Colombo, pode perder o seu monumento junto ao Central Park, em Nova York, porque descobriu a América abrindo as portas para o genocídio dos nativos, a que chamou de “índios”, por pensar ter chegado à Índia.

 
Nem os próprios pretos vão escapar. Chega-se a dizer que a “dívida” da sociedade branca para com os afrodescendentes foi anulada pelo fato dos próprios negros serem corresponsáveis pelo regime escravista. Eles é que caçavam e vendiam na África seus irmãos de cor para os portugueses.

Zarcillo Barbosa é jornalista
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