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A RESSURREIÇÃO DO MUNDO

A RESSURREIÇÃO DO MUNDO

ZARCILLO BARBOSA
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Pessoas de baixo conhecimento supõem que suas opiniões são superiores às dos especialistas. Elas gostam de se vangloriar de seu “senso comum” inato, que ao longo da história sempre provou ser o pior tipo de senso. Em Psicologia, esse comportamento é chamado de Efeito Dunning-Kruger, investigado por dois pesquisadores norte-americanos.


Políticos trocam a lógica por asneiras emocionais, com o objetivo de inflar seus egos sem desafiar suas mentes. Diante de uma pandemia que já matou mais de mil infectados no Brasil, e outros cem mil pelo mundo, acham-se no “direito de ir e vir”.  Desrespeitam o isolamento, que é uma das poucas estratégias conhecidas dos cientistas para combater o mal, de maneira mais ou menos eficiente.


Em 1904, Oswaldo Cruz quis obrigar o povo, no Rio de Janeiro, a se vacinar contra a febre amarela. Nem mesmo o presidente Rodrigues Alves se convenceu. A população se revoltou, os jornais apoiaram os protestos. Chamavam os vacinadores de bando de sátiros que só queriam ver os braços desnudos das mulheres. Até Rui Barbosa liderou os positivistas contra esse “código de torturas”. O Estado não tinha direito de interferir na decisão individual de vacinar-se ou não. “Assim como o direito veda ao Poder Humano invadir-nos a consciência, assim lhe veda transpor-nos a epiderme. Envenenar-me com a introdução no meu sangue, de um vírus…”


Houve quebra-quebra, canções de protesto. Mas, o castigo alado, transmitido por um mosquito que é o mesmo da dengue (aedes aegipty),  quatro anos depois matou 9 mil pessoas no Rio de Janeiro. Só então começaram a compreender a importância da vacinação.


A “gripe espanhola”, de 1918, infectou 500 milhões de pessoas, ou um quarto da população mundial à época. Provavelmente morreram entre 50 a 100 milhões de infectados pela influenza. O vírus H1N1, ainda está por aí, contido pela vacinação em massa contra a gripe. Oswaldo Cruz certamente se orgulharia do interesse dos brasileiros, hoje, em fazer filas nos dispensários para se vacinarem, e das aplicações pelo sistema drive-thru, para os idosos.


A peste de 1918 matou aos montes pela desnutrição e falta de higiene. A Covid-19 tem se mostrado mais letal, no Brasil, entre negros do que entre brancos. A revelação estatística não surpreende. As comorbidades são ligadas a questões sociais, como falta de saneamento básico, as desigualdades raciais, condições precárias de moradias e alimentação inadequada.


A melhor distribuição de renda e o acesso à saúde terão que ser repensadas quando tudo isso acabar. A pandemia custará 4 trilhões de dólares ao mundo. Com um quarto desse dinheiro teríamos eliminado a pobreza e criado condições para o acesso universal à saúde. Em nome do tal “equilíbrio fiscal”, os neoliberais cometeram crueldades. A conta vem salgada e o dinheiro finalmente apareceu, mesmo porque é uma questão de sobrevivência também para os ricos. Pascal avisava que todos os males derivam do fato de que não somos capazes de permanecer tranquilos em nossos quartos. Que nesta Páscoa, tão estranha, o confinamento nos sirva para pensar na ressurreição de um mundo mais justo. Como sempre quis aquele que morreu para redimir a humanidade.


Zarcillo Barbosa é jornalista



*Capa: Alireza Pakdel

proximarota
1 Comentário
  • Neusa Richards

    Feliz artigo
    Tomara que você tenha razão
    Vamos olhar o mundo de uma forma mais justa para todos
    Afinal somos todos filhos de Deus , não ?🙏

    13/04/2020 às 12:28 Responder

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