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A BRÓDUEI BAURUENSE

A BRÓDUEI BAURUENSE

ZARCILLO BARBOSA
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O bauruense já havia criado o verbo batistar quando surgiu o calçadão criado pelo prefeito Izzo Filho, há uns 25 anos. Batistar significa – para aqueles que estão chegando agora – flanar pela nossa principal rua de comércio, encontrar os amigos e jogar uma conversa fora.


Somente o calçadão da Batista nos oferece aquele desfile interminável de personagens pirandellianos, vivos e fascinantes e que sempre nos surpreendem nas manhãs ensolaradas.


De repente é uma popozuda que passa vestida em microcomprimentos e maxidecotes a exibir o melhor rebolado. Certamente alguém que desembarcou do ônibus vinda da periferia distante, mas disposta a desfrutar do mesmo sol de ricos e remediados, e ter seu dia de Camila Pitanga.


Frequento a mesa do Café-Zinho, recriação de Raduan Trabulsi do extinto Juca Pato. Está bem em frente da Casa Luzitana, no passado ponto de encontros sob o relógio, depois da missa na Catedral. Hoje não mais existe aquele que foi o primeiro magazine de Bauru, uma loja que vendia de tudo. De bacalhau a rendas francesas; de pregos e martelos a espingardas de caça.


O prédio é o mesmo, com seu arremedo de arquitetura art déco. O relógio está parado há anos, embora o Jaime Prado prometa o milagre de fazê-lo andar novamente.


Reintegrar o tempo da origem significa reencontrar a presença dos deuses. Há um quê de sagrado na nostalgia do ser, embora a nova geração, sem futuro e presente, esteja ainda menos interessada no passado.


Os mortos insistem em nos governar com suas leis, nomes de ruas e praças. Era o que dizia Auguste Comte. Ele mesmo, morto há 163 anos, até hoje interfere nas nossas vidas com seu lema “Ordem e Progresso”.  A bandeira do Brasil inspira-se na filosofia positivista, que também embasa a doutrina jurídica do país.


A impossibilidade de o indivíduo bastar-se a si mesmo fez surgir o território do encontro, desde as cavernas com o seu fogo central. Os gregos tinham a Ágora, local onde se fazia o mercado e as assembleias do povo.


O calçadão é esse lugar simbólico. De vez em quando surge uma passeata, de protesto ou simplesmente de reafirmação religiosa. Cabem campanhas de saúde, manifestações políticas. Vale tudo. É lá que crescem as sensações de identidade e orgulho urbanos, entrelaçando a cidade real com a cidade imaginada.


Em Portugal descobri que calçadão é “trecho pedonal”. Quase um impropério. Na Espanha, “passeo peatonal”. Peão é quem anda a pé, antes de ser amansador de cavalos e bestas.


As cidades precisam, cada vez mais, de subversões do espaço urbano que rompam a monotonia, despertem curiosidade, gerem discussões e promovam transformações dinâmicas.


Estonteado com o desfile de uma leva de garotas de panos escassos, no alto verão bauruense, Chico Ferramenta, com aquela voz encatarroada, até arriscou definir: “A Batista é a nossa Bróduei”. Sacou?

Zarcillo Barbosa é jornalista
proximarota
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